Seja bem-vindo
José Bonifácio,15/01/2026

  • A +
  • A -
Publicidade

Efeito Dominó: quem são as empresas e fundos impactados pela liquidação do Banco Master — e o que o episódio revela sobre FGC, risco sistêmico e supervisão bancária


Efeito Dominó: quem são as empresas e fundos impactados pela liquidação do Banco Master — e o que o episódio revela sobre FGC, risco sistêmico e supervisão bancária

A liquidação extrajudicial do Banco Master, decretada pelo Banco Central, desencadeou um movimento de grande repercussão no mercado financeiro brasileiro. A crise evidenciou a exposição de empresas, fundos de pensão e investidores institucionais a títulos de crédito emitidos não apenas pelo próprio banco, mas também por veículos de captação vinculados ao grupo de empresas de Sandro Vorcaro.


A seguir, analisamos não apenas quem foi impactado, mas também como funciona a estrutura jurídica e institucional que regula a segurança do sistema bancário brasileiro — incluindo o Fundo Garantidor de Créditos (FGC), suas limitações e o papel do Banco Central.


1. Sistema bancário brasileiro: estabilidade como princípio jurídico e institucional


O sistema bancário é fortemente regulado no Brasil, tendo como base legal:


Lei 4.595/1964, que criou o Conselho Monetário Nacional (CMN) e o Banco Central;


Lei 6.024/1974, que disciplina intervenção e liquidação de instituições financeiras;


Normas complementares do CMN e BACEN.


O modelo brasileiro é guiado pelo princípio da estabilidade do Sistema Financeiro Nacional (SFN). Isso significa que:


• Bancos privados operam sob regras rígidas de capital, liquidez e solvência.


Devem manter reservas, limites de exposição, controles internos e políticas de compliance.


• O Banco Central exerce supervisão contínua


Analisando demonstrativos, operações de crédito, concentração de riscos e governança.


• Quando uma instituição apresenta risco relevante ao mercado, intervém por meio de:


direção fiscal,


intervenção, ou


liquidação extrajudicial, medida aplicada ao Banco Master.


2. O papel jurídico do Banco Central na liquidação


A liquidação extrajudicial, prevista nos arts. 15 a 27 da Lei 6.024/1974, tem como finalidade:


proteger os depositantes;


evitar contágio sistêmico;


apurar responsabilidades;


preservar o patrimônio remanescente para pagamento dos credores.


Com a decretação da liquidação:


os administradores são afastados;


um liquidante nomeado pelo BACEN assume a instituição;


todos os pagamentos são suspensos;


inicia-se a verificação de créditos segundo ordem legal de prioridade.


No caso do Banco Master, a liquidação foi motivada por:


insuficiência patrimonial,


risco de insolvência,


operações incompatíveis com níveis de liquidez exigidos.


Este é o evento que desencadeia todo o efeito dominó analisado adiante.


3. Entendendo o FGC: quem é protegido — e quem não é


O Fundo Garantidor de Créditos é uma associação privada sem fins lucrativos, criada para proteger pequenos depositantes e promover confiança no sistema bancário.


3.1. Quem é protegido pelo FGC


O FGC cobre até R$ 250 mil por CPF/CNPJ, por instituição, por tipo de produto, incluindo:


CDBs


RDBs


Contas correntes


Poupança


Letras de câmbio


3.2. Quem não tem proteção


O FGC não cobre, entre outros:


Letras Financeiras (LF)


Debêntures


Fundos de investimento


Instrumentos estruturados


Títulos emitidos por empresas não bancárias


Investidores profissionais que aplicam fora do escopo do FGC


É justamente por isso que fundos de pensão com Letras Financeiras do Master estão altamente expostos: não há garantia.


3.3. FGC como mecanismo de estabilidade, não de salvamento institucional


O FGC protege o depositante, não o banco. E não cobre riscos assumidos fora dos instrumentos garantidos.


Assim, quando empresas e fundos aplicam em produtos sem garantia, assumem risco integral da contraparte.


4. Quem já revelou exposição aos títulos ligados ao Banco Master e ao grupo Vorcaro


Pelo menos três empresas listadas na B3 já comunicaram exposição aos CDBs emitidos pelo Master para captação de recursos associados ao grupo do empresário Sandro Vorcaro:


4.1. Allos S.A.


Informou ao mercado possuir recursos aplicados em CDBs do Banco Master. Os valores foram classificados como de impacto administrável, mas sujeitos ao processo de liquidação.


4.2. Tenda S.A.


A construtora divulgou exposição relevante e destacou que os títulos integram sua política de gestão de caixa.


4.3. Iguatemi S.A.


Também comunicou aplicações em instrumentos de renda fixa emitidos pelo Master.


Essas revelações mostram que a distribuição dos papéis alcançou empresas de grande porte, reforçando o caráter sistêmico da liquidação.


5. Fundos de pensão: 17 entidades expostas às Letras Financeiras do Master


Levantamento do Estadão identificou que 17 fundos de pensão mantinham aplicações em Letras Financeiras (LF) do Banco Master — títulos não garantidos pelo FGC e destinados a investidores mais sofisticados.


Entre os riscos associados:


• Risco de crédito integral


Se o banco não tiver patrimônio suficiente, a recuperação pode ser baixa ou nula.


• Risco regulatório e de governança


Fundos devem seguir diretrizes rígidas de diligência (Resolução CMN 4.661/2018).


• Possível responsabilização de gestores


PREVIC, patrocinadores e órgãos de controle podem questionar decisões de investimento.


• Impacto atuarial


Perdas significativas podem comprometer a solvência de planos de benefícios.


Esse ponto é delicado, pois envolve recursos previdenciários de longo prazo, cujo risco deve ser minimizado — e não ampliado.


6. O modelo Vorcaro–Master e o risco jurídico da captação estruturada


O esquema de captação funcionava, basicamente, assim:


O Banco Master emitia CDBs e LFs.


Os recursos financiavam empresas do grupo Vorcaro.


Instituições e empresas adquiriam esses títulos buscando rentabilidade maior.


Com a liquidação, vêm à tona questões como:


concentração indevida de risco;


conflitos de interesse;


qualidade das garantias oferecidas;


rastreamento de destino dos recursos captados;


eventual responsabilidade civil e criminal.


Esse tipo de operação pode ser analisado sob o prisma da:


Lei das S.A. (arts. 153 a 157)


Lei 6.024/74 (responsabilidade de administradores)


Código Civil (arts. 927 e 186 — responsabilidade civil)


Regulação do BACEN e da CVM


Ou seja, abre espaço para contenciosos societários, consumeristas e administrativos.


7. Repercussões jurídicas e econômicas do efeito dominó


A liquidação gerou impactos imediatos e estruturais:


7.1. Congelamento dos títulos


Os papéis ficam bloqueados até conclusão da liquidação, que pode durar anos.


7.2. Credores quirografários


CDBs e LFs não têm privilégio — a recuperação costuma ser mínima.


7.3. Aumento de litígios


Empresas e fundos podem ajuizar ações:


contra administradores;


contra auditores;


contra distribuidores dos títulos;


buscando indenização por suposta informação inadequada.


7.4. Reavaliação de políticas de risco


Entidades de previdência, tesourarias corporativas e family offices terão de revisar metodologias de análise e exposição a bancos médios.


8. Conclusão: o caso Master expõe fragilidades estruturais e reforça a importância do arcabouço regulatório


A liquidação do Banco Master expôs:


a vulnerabilidade de investidores a títulos sem garantia do FGC;


falhas de governança e fiscalização prévia;


riscos da concentração de crédito em grupos econômicos com baixa transparência;


necessidade de aprimoramento das políticas internas de risco;


o papel central do Banco Central na preservação da estabilidade.


O episódio funciona como um alerta jurídico e institucional para o mercado, demonstrando que:


rentabilidade maior exige análise proporcional de risco;


o FGC não é um escudo universal;


fundos e empresas precisam reforçar compliance e limites de exposição;


e que a supervisão bancária, embora eficaz na contenção do dano sistêmico, não evita perdas individuais.




COMENTÁRIOS

Buscar

Alterar Local

Anuncie Aqui

Escolha abaixo onde deseja anunciar.

Efetue o Login

Recuperar Senha

Baixe o Nosso Aplicativo!

Tenha todas as novidades na palma da sua mão.