Funfarme registra aumento de 136% em atendimentos a mulheres vítimas de violência física e de 80%, de violência sexual
Neste 8 de março, Dia Internacional da Mulher, a Funfarme – Fundação Faculdade Regional de Medicina de Rio Preto chama a atenção para a triste realidade que chega diariamente às portas de seus hospitais: a crescente violência contra mulheres de todas das idades, de crianças a idosas. Por trás de cada número, segundo a instituição, há histórias marcadas por medo, extrema humilhação, silêncio e, muitas vezes, dificuldade de romper os ciclos de agressão.
Entre 2018 e 2025, foram registrados 1.532 atendimentos a vítimas de violência física e sexual no Hospital de Base (HB) e no Hospital da Criança e Maternidade (HCM), em São José do Rio Preto (SP). Destes, 474 foram de violência física, média de 59 por ano, e 1.058 de violência sexual, média de 132 ao ano.
Os casos escalaram significativamente de 2021 para 2022 e, desde então, aumentam em maior intensidade. Se entre 2018 e 2021, o complexo hospitalar registrou 379 casos de violência sexual, entre 2022 e 2025, saltaram para um total de 679 ocorrências, aumento de 80%.
Crianças e adolescentes são as principais vítimas. Das 1.058 mulheres vítimas de violência sexual, 703 tinham menos de 18 anos, ou seja, 66% do total.
A violência física levou menos mulheres ao complexo hospitalar nos oito anos, no entanto, o aumento foi maior, de 136% quando comparados os dois períodos de quatro anos. Passou de 141 casos, entre 2018 e 2021, para 333 casos, entre 2022 e 2025, aumento de 136%.
Não é possível estabelecer, de forma conclusiva, uma relação de causa e efeito. No entanto, a psicóloga Carla Zanin, chefe do Serviço de Psicologia do HB e do HCM, destaca uma coincidência relevante: o aumento expressivo dos casos de violência foi registrado logo após o término da pandemia de covid-19.
“Tenho a percepção de que esses números vêm crescendo. Durante a pandemia, houve um aumento expressivo, em razão do isolamento social, da perda de emprego por muitos homens e da maior vulnerabilidade das famílias. Somados ao uso de substâncias psicoativas, esses fatores podem ter contribuído para esse cenário. Além disso, é possível que parte desse crescimento esteja relacionada a uma maior procura por ajuda”, afirma Carla Zanin, que também é docente da disciplina de Psicologia da Famerp (Faculdade de Medicina de Rio Preto).
Para acolher estas pacientes em fragilidade absoluta, o complexo hospitalar mobiliza dezenas e profissionais e setores do seu ambulatório geral de especialidades e dos dois hospitais. “É uma realidade que nos revolta e indigna e sobre a qual, nos últimos anos, nosso complexo hospitalar e profissionais têm atuado para combater fortemente”, afirma o diretor executivo da Funfarme, Dr. Horácio Ramalho.
Ações da Funfarme em defesa das mulheres
Em 2019, a Funfarme organizou protesto em frente ao HB, no qual reuniu mais de 300 pessoas, suas lideranças e profissionais do HB, HCM, Instituto Lucy Montoro, Hemocentro, alunos e docentes da Famerp. O manifesto ocorreu logo após o assassinato de uma enfermeira do hospital por seu marido. A atuação da Fundação, culminando com o protesto, resultou na criação da Vara de Violência Doméstica e Familiar contra a Mulher em Rio Preto.
No próximo dia 11 de março, a Funfarme realiza palestra cujo tema é “Violência e Assédio contra Mulheres em Ambiente de Trabalho” para seus colaboradores. O complexo possui mais de 9.000 profissionais. A palestra será proferida pela Dra. Daniela Sanchez Ita Ferreira, defensora pública do Estado de São Paulo e coordenadora do CAM - Centro de Atendimento Multidisciplinar da Defensoria Pública em Rio Preto. Dra. Daniela é autora do projeto "Empodera Mulher" e tem ampla experiência na defesa dos direitos da população feminina, tendo atuado no Núcleo de Defesa das Mulheres (NUDEM) e no Núcleo de Situação Carcerária (NESC).
Comentários inadequados, piadas ofensivas, intimidação, discriminação salarial, assédio sexual, todas estas condutas violam a dignidade das profissionais e comprometem sua saúde física e mental. E quando se naturaliza esses comportamentos, perpetua-se um ciclo que precisa ser interrompido.
HB e HCM têm grande estrutura de acolhimento e cuidado à mulher
O atendimento às vítimas mobiliza várias equipes multiprofissionais, que reúnem médicos e profissionais de enfermagem, psicologia e serviço social, garantindo atendimento humanizado e integral, conforme as normativas vigentes de atenção à saúde e proteção de direitos.
No HCM, o atendimento de mulheres vítimas de violência física acontece na emergência obstétrica, sendo a maioria gestantes em situação de violência. Em todos os casos identificados ou suspeitos de violência física, a psicologia é acionada para avaliação e definição de conduta psicológica. No HB, a porta de entrada para mulheres vítimas de violência física ocorre no Pronto Atendimento (PA) da Cirurgia Geral. Nos casos de maior gravidade, com risco iminente de morte ou presença de agravos significativos, as pacientes são encaminhadas diretamente para a sala vermelha para atendimento emergencial.
A chefe do Serviço de Psicologia do HB e HCM, Carla, ressalta que a intervenção psicológica tem como objetivo o acolhimento, a escuta, a autorregulação emocional, a redução do sofrimento psicológico e o fortalecimento da autonomia da mulher.
“Acredito que, quanto mais sensibilizarmos as pessoas que vivenciam relacionamentos abusivos e marcados por violência, mais seguras elas se sentirão para denunciar. Muitas vezes, a rede de apoio não está na família, mas em instituições capazes de oferecer acolhimento e orientação, fortalecendo a autoconfiança dessas mulheres para que possam tomar decisões e romper com essa realidade”, finaliza.








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