A nova geração de remédios para emagrecer: solução ou risco?
Nos últimos anos, medicamentos como Ozempic, Wegovy e Mounjaro se tornaram protagonistas de uma revolução no tratamento da obesidade. Prometendo perda significativa de peso e controle do apetite, esses fármacos ganharam destaque mundial, não apenas nos consultórios médicos, mas também nas redes sociais e no imaginário popular.
A questão que especialistas começam a discutir com mais profundidade é inevitável: essas medicações representam um avanço médico ou um novo risco quando utilizadas sem acompanhamento?
A obesidade como doença metabólica
Durante muito tempo, o excesso de peso foi tratado apenas como consequência de hábitos de vida. Hoje, a ciência reconhece a obesidade como uma doença metabólica complexa, que envolve fatores hormonais, genéticos, ambientais e psicológicos.
Dados recentes do Ministério da Saúde mostram a dimensão do problema no país. A obesidade entre adultos brasileiros cresceu cerca de 118% entre 2006 e 2024, atingindo aproximadamente um em cada quatro adultos. Quando se considera o excesso de peso, os números são ainda maiores: mais de 60% da população adulta está acima do peso ideal.
Esse cenário ajuda a explicar por que medicamentos que atuam na regulação do apetite e do metabolismo ganharam tanta atenção.
Os chamados agonistas hormonais - como semaglutida e tirzepatida - atuam em mecanismos ligados à saciedade e ao controle glicêmico. Eles simulam hormônios intestinais que sinalizam ao cérebro que o organismo está satisfeito, reduzindo o apetite e facilitando a perda de peso. Alguns estudos internacionais mostram que pacientes podem perder entre 15% e 20% do peso corporal com essas terapias quando usadas dentro de protocolos médicos adequados.
O risco do uso indiscriminado
Com a popularização dessas medicações, autoridades sanitárias passaram a reforçar regras para evitar o uso inadequado. No Brasil, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária determinou que medicamentos dessa classe só podem ser vendidos com retenção de receita médica, justamente para evitar automedicação e prescrição indiscriminada.
Para a endocrinologista e psiquiatra Dra. Camila Venancio, diretora da Salut Consult, o avanço científico é real, mas o uso precisa ser feito com responsabilidade. “Esses medicamentos representam um dos maiores avanços recentes no tratamento da obesidade. Mas precisamos lembrar que eles foram desenvolvidos para tratar uma doença metabólica, não para atender a pressões estéticas. Quando usados sem indicação adequada, podem mascarar problemas mais profundos e gerar expectativas irreais”, destaca ela.
Segundo a médica, a obesidade exige avaliação individualizada e acompanhamento contínuo “Nenhum medicamento resolve a obesidade isoladamente. Ele precisa estar inserido em um plano terapêutico que envolva alimentação adequada, atividade física, sono, saúde mental e acompanhamento médico. Fora desse contexto, o risco de frustração e de efeito rebote é muito maior”, alerta Dra. Camila.
Estudos apontam, inclusive, que parte do peso perdido pode retornar após a suspensão do medicamento se mudanças de estilo de vida não forem consolidadas.

O peso emocional por trás do peso físico
Para além da biologia, o tema também envolve dimensões emocionais profundas. A psicóloga Dra. Bruna Venancio, diretora da Salut Consult, destaca que muitas pessoas que vivem com obesidade enfrentam anos de julgamento social, frustração e sofrimento psicológico. “O peso não está apenas no corpo, muitas vezes ele está na história emocional da pessoa. Existe vergonha, culpa, comparação constante e pressão social. Quando o tratamento ignora esse aspecto psicológico, ele fica incompleto”, ressalta ela.
Segundo Dra. Bruna, a popularização dos medicamentos trouxe esperança para muitos pacientes, mas também pode alimentar ilusões “O risco é transformar uma ferramenta médica em promessa de solução mágica. O tratamento da obesidade exige reconstrução de hábitos, apoio psicológico e mudança de relação com o próprio corpo. Sem isso, qualquer intervenção tende a ser temporária”, explica ela.
Solução ou risco? Depende de como é usado
Na visão das especialistas da Salut Consult, os novos medicamentos representam um avanço importante na medicina, especialmente para pacientes com obesidade grave ou doenças associadas, como diabetes e hipertensão. O problema surge quando eles passam a ser utilizados sem a indicação e acompanhamento profissional adequado.
Em um momento em que a sociedade busca soluções rápidas para problemas complexos, o alerta dos especialistas é direto: o verdadeiro tratamento da obesidade começa com informação, ciência e responsabilidade.
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Dra. Camila Venâncio de Souza
(CRM 165.109/SP)









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