Dona Antonia Real: a mulher que fez da maternidade sua maior obra
No coração de uma grande família existe uma mulher de nome imponente e alma serena: Antonietta Geraldo Mattos, carinhosamente chamada de Dona Antonia Real. Sua verdadeira nobreza estava na coragem com que viveu, no amor com que criou os filhos e na fé que a guiou até o fim. Neste Dia das Mães, sua história é exemplo de superação e do dom de ser mãe.

Nascida em 9 de junho de 1925, na cidade de Matão (SP), filha do imigrante italiano Domingos Geraldo e da brasileira Amabile Begnossi Geraldo, Dona Antonia casou-se em 23 de setembro de 1948, em José Bonifácio, com José da Conceição Mattos, o conhecido Sr. Zé Real Português, com quem teve 12 filhos, seis homens e seis mulheres. São eles José Antônio, Ermelinda, Augusto, Thereza, Manoel, Antônia, Edna, Fernando, Maria Aparecida (que partiu ainda bebê), Fátima, Eduardo e Rene, Dona Antonia viveu para eles. Literalmente. A maioria dos filhos nasceu em casa, pelas mãos da própria avó, que era parteira.

A vida de Dona Antonia foi por um bom tempo na simplicidade do sítio. Até que, em 1970, seu marido comprou o Real Bar, ponto lendário da cidade. Um ano depois, veio a separação — e com ela o maior desafio de sua vida: criar 11 filhos sozinha, sem saber ler, sem nunca ter ido a um banco ou ao supermercado, sem ter tido até então outra função que não fosse cuidar da casa, dos filhos e preparar salgados para o bar. Ela poderia ter desmoronado. Mas escolheu florescer.
Além de todos os afazeres durante o dia, Dona Antonia se matriculou no Mobral e começou a estudar à noite, já exausta de um dia inteiro de trabalho. Quando conseguiu escrever o próprio nome parou, o cansaço era grande. Mas para ela, a missão estava clara: garantir que os filhos tivessem acesso ao que ela não teve. E conseguiu. Com o apoio de seu braço direito, o filho mais velho, José Antônio (o Guta), na época com pouco mais de 20 anos, proporcionou a todos a chance de estudar, se formar e ter uma vida melhor.
A casa de Dona Antonia era mais que um lar — era um abrigo. Cheia de filhos, noras, genros, netos e bisnetos, adorava os almoços de domingo com barulho, alegria e fartura. Na mesa sempre uma boa macarronada à bolonhesa, frango assado, bisteca, maionese, pavê e a famosa gelatina colorida enchiam os olhos e o coração.
Nas festas de fim de ano, ela fazia questão do peru, da leitoa e do bolinho de bacalhau e do doce português aletria, tradição que os filhos mantêm até hoje. Nos Natais de Dona Antonia todos, crianças e adultos, ganhavam presentes. Eram lembrancinhas muito singelas mas cheias de afeto. Para a entrega, um animado Papai Noel era incorporado por alguém da família.

Atenta às tradições e sempre envolvida com a vida da comunidade, Dona Antonia fazia questão de prestigiar os desfiles comemorativos na Avenida 9 de Julho. Sentava-se em sua cadeira na calçada com olhos atentos e aplaudia com entusiasmo cada passagem e acenava sorridente para os participantes — uma verdadeira celebração da vida, da cultura e das raízes que tanto prezava.
Cuidava dos netos como cuidou dos filhos — em bando. Dava banho coletivo, colocando em turma debaixo do chuveiro, servia comida na boca de vários ao mesmo tempo, ria das próprias piadas antes mesmo de contá-las, espalhava amor no ar. E mesmo com diabetes, não abria mão de um docinho: “Hoje aumenta um risquinho na insulina”, dizia ela com seu jeitinho.
Para cada lamento dos filhos, um conselho simples e sábio: “Senta e conversa” ou “Amanhã será um novo dia.” Dona Antonia era assim: fé inabalável, amor sem medida, alegria que curava.

Ela partiu no dia 30 de março de 2011, mas segue viva nos gestos, nas risadas, nas histórias contadas à mesa. Deixou 11 filhos, 27 netos e 18 bisnetos, e um exemplo eterno de força, generosidade, acolhimento, luz e muitas histórias.
Neste Dia das Mães, lembramos dela com saudade e com o coração aquecido. Porque uma mulher como Dona Antonia Real não passa pela vida: ela a transforma.










COMENTÁRIOS