Outubro Rosa: a travessia de fé e coragem de Daisa Patriarcha
Diagnosticada com câncer de mama aos 38 anos, Daisa enfrentou um tratamento severo sem permitir que o medo fosse maior do que sua vontade de viver. Entre a fé, o amor pelo filho, a presença do marido e uma importante rede de apoio, descobriu em si uma força que não sabia possuir. Hoje, sua história deixa às mulheres um alerta essencial: cuidar de si não pode ficar para depois.
Há acontecimentos que dividem a vida entre o antes e o depois. Para Daisa Patriarcha, esse momento chegou aos 38 anos, quando abriu o resultado de um exame e encontrou uma palavra para a qual ninguém está verdadeiramente preparado: câncer.

O nódulo havia sido percebido por ela em novembro de 2025. Na época, Daisa tentou agendar um exame, mas, sem uma data próxima disponível, acabou adiando a investigação. No mês seguinte, porém, uma circunstância inesperada mudaria completamente o rumo de sua história.
Em dezembro, ela apresentou um quadro semelhante a dengue ou chikungunya e precisou permanecer internada por oito dias no Hospital de Base (HB). Durante a internação, comentou com a equipe médica sobre o nódulo que havia sentido na mama. Como já estava no hospital, os profissionais consideraram prudente realizar os exames.
Foi durante a ultrassonografia que Daisa percebeu, antes mesmo de ouvir qualquer explicação, que havia algo errado. “A médica não me falou nada, mas não precisou. Eu vi no olhar dela. Então ela disse que eu precisaria fazer uma biópsia. Eu já tinha uma suspeita de que pudesse ser positivo, mas, quando você pega o diagnóstico de verdade na mão, o mundo se abre, não sei definir em palavras aquele sentimento. Você se angustia, se desespera e pensa no filho, no marido, em como vai ser dali para frente. Porque, naquele exato momento, a sua vida muda completamente”, conta ela.

A mão que ela segurou primeiro
A primeira pessoa a saber foi o marido, Marco Antônio Peres. Diante do medo e da incerteza, ele respondeu com aquilo que se tornaria uma constante nos meses seguintes: presença. “Ele falou: ‘Amor, fique em paz, vai dar tudo certo. A gente vai fazer tudo o que tiver que fazer e vai dar tudo certo”, relembra Daisa.

Naquele primeiro momento, os dois decidiram não contar a mais ninguém. No dia seguinte, Daisa voltou à médica mastologista. Ainda tentando compreender o significado do diagnóstico, ouviu pela primeira vez a dimensão do caminho que teria pela frente: quimioterapia, cirurgia, mastectomia total, radioterapia, novos exames e diferentes especialistas.
Era informação demais para quem ainda tentava assimilar tudo que estava passando naquele momento. “Eu me senti perdida, minha cabeça não conseguia funcionar. Não sabia que precisaria de oncologista clínico, oncologista cirurgião, radio-oncologista. Não conhecia esse caminho”, relata ela.
A experiência fez nascer nela uma sensibilidade que hoje se estende a quem começa a percorrer a mesma estrada. “Hoje, se sei de alguém que recebeu o diagnóstico, procuro saber se essa pessoa conhece esse caminho, se quer conversar. Tento passar um pouco da experiência que vivi”, conta Daisa.
“Eu não quero que outras mulheres errem da mesma maneira”
Quando descoberto, o tumor de Daisa já media quase seis centímetros. E é justamente ao falar sobre isso que seu relato encontra uma das mensagens mais importantes deste Outubro Rosa.
Por muito tempo, ela fez algo comum a tantas mulheres: colocou todos à sua frente. Família, trabalho, filho, compromissos. A própria saúde poderia esperar mais um pouco. Até que não pôde.
“Eu sempre fui muito tranquila em relação ao autocuidado. Priorizava família, trabalho, filho e ia deixando: ‘mês que vem eu faço’. Infelizmente, quando descobri, a doença já estava avançada. Eu não quero que outras mulheres errem da mesma maneira que eu”, enfatiza.

É por isso que, para Daisa, o Outubro Rosa deixou de ser apenas uma campanha vista todos os anos para adquirir um significado profundamente pessoal. “Nesse Outubro Rosa, eu digo às outras mulheres: nunca se deixem de lado. Priorizem-se, cuidem-se. O diagnóstico precoce salva vidas. Essa frase pode até parecer clichê, porque a gente ouve muito, mas precisamos realmente compreender o por que existe a campanha: fazer o exame no tempo certo pode salvar uma vida”, destaca ela.
Quando uma família inteira enfrenta o tratamento
Depois das consultas e dos exames que ajudaram a dimensionar o quadro, chegou o momento de contar à família. Seus pais, Pedro Geraldo Patriarcha e Maria Regina Augusto Patriarcha, souberam da gravidade da doença. E havia ainda uma presença especialmente delicada o filho, Marco Antônio, que tinha apenas seis anos.

Pequeno demais para compreender todos os detalhes, mas grande o suficiente para perceber que alguma coisa havia mudado. Marco Antônio sentiu o clima da casa, passou a enrolar o cabelo e começou a fazer uma pergunta que nenhuma mãe gostaria de ouvir de um filho: se ela iria morrer. “Foi uma fase muito difícil. Mas consegui passar por ela e pelas outras que vieram com muito apoio. Minha família, a família do meu marido e alguns amigos próximos estiveram muito presentes. Essa rede de apoio é fundamental para uma pessoa que passa por um tratamento tão severo como a quimioterapia”, relata Daisa.
O marido, Marco Antônio, precisava continuar trabalhando e não conseguia acompanhá-la o tempo todo. Foi então que o cuidado se multiplicou. Amigas a levavam e buscavam nas sessões de quimioterapia. Outras davam apoio em casa e ajudavam com a comida e com aquilo que fosse necessário. Não era apenas ajuda prática. Era uma maneira de dizer: você não está sozinha. “Eu tive uma rede de apoio muito significativa. Foi a minha base para conseguir enfrentar tudo isso”, enfatiza ela.
Uma mãe tentando ser forte para que o filho também fosse
O câncer mudou Daisa. Ela não hesita quando perguntada se ainda é a mesma mulher de antes: “Não. Nunca. Não sou a mesma pessoa! Mudei completamente a forma de ver a vida. Aprendi a enxergar beleza nos pequenos detalhes, no dia a dia, na bondade do Senhor e em tudo aquilo que Ele nos manda. Aprendi a viver um dia após o outro”.
Durante o tratamento, uma frase de Santa Gianna tornou-se especialmente significativa para ela: “O segredo da felicidade é viver momento a momento e agradecer ao Senhor tudo aquilo que, em sua bondade, nos manda no dia a dia.”
A fé esteve presente não apenas como consolo, mas como uma forma de atravessar aquilo que não podia controlar. Daisa conta que uma mudança importante aconteceu quando deixou de lutar contra a existência da doença e passou a concentrar suas forças em enfrentá-la. “Enquanto existia um sentimento de negação dentro de mim, era mais difícil. A partir do momento em que falei: ‘Está aí, isso veio para mim’, e aceitei, tudo se tornou mais leve”, revela ela.
Mesmo nos dias mais difíceis, havia um esforço deliberado para preservar o sorriso. Não porque não houvesse sofrimento, mas porque Daisa sabia que sua dor também atingia aqueles que mais amava. “Mesmo nas fases mais difíceis, eu sempre procurei sorrir e não deixar transparecer todo o sofrimento que estava sentindo. Eu queria que as pessoas que estavam ao meu lado também permanecessem fortes. Então, muitas vezes, eles me perguntavam: ‘Está tudo bem?’. E eu sorria, tentava me colocar de pé e respondia: ‘Está tudo bem. Vamos embora!’. Era a minha maneira de seguir em frente e de dar força a eles também”, relembra ela.
E assim, com o sorriso que a acompanha, uma fé que se fortaleceu no caminho e pessoas dispostas a segurá-la quando necessário, Daisa foi vencendo etapa por etapa.
“Nós temos muito mais força do que imaginamos”
Há uma força que, segundo ela, só se conhece quando é preciso encontrá-la. “Nós, mulheres, temos muito mais força do que imaginamos ter. Temos muito mais fé do que imaginamos. Antes, você olha para uma situação dessas e pensa: ‘Eu não conseguiria’, mas consegue. Pensa: ‘Eu não teria essa força’, mas tem. Uma mãe, uma filha, uma esposa encontra força para viver por quem ama. E Deus nos sustenta em todos os momentos”, destaca.

Nos períodos de maior fragilidade, Daisa conta que aprendeu também a perceber aquilo que chama de pequenos milagres do dia a dia. “Quando estamos mais sensíveis, começamos a enxergar esses pequenos milagres acontecendo. A gente vê a ação do Espírito Santo na nossa vida. É uma coisa inexplicável.”
Um dos registros mais íntimos dessa travessia está guardado para o futuro. Durante o tratamento, Daisa escreveu um diário para o filho Marco Antônio.
Houve momentos em que teve medo de não sobreviver para contar ao filho tudo o que estava vivendo e sentindo. Então colocou no papel aquilo que talvez um dia não pudesse dizer pessoalmente. “Escrevia como se fosse uma carta para ele. Escrevi muitas coisas. Acho que, em um momento oportuno no futuro, vou entregar para que ele se lembre da força que temos e de tudo o que nós vivemos”, revela ela.

Hoje, felizmente, com o fim do tratamento e o câncer em remissão, é ela quem pode contar essa história.
Depois do deserto
Para quem acaba de receber um diagnóstico de câncer e talvez esteja vivendo agora o mesmo medo que um dia a paralisou, Daisa escolhe duas palavras: fé e força. “Nunca deixe nada abalar sua fé e tenha muita força para enfrentar tudo. Todo deserto tem seu fim. É um tempo difícil, que exige muita resiliência, mas passa. Tudo passa. Passou para mim e vai passar para outras pessoas também”, fala ela.
Depois do deserto, a paisagem mudou.
O amanhecer passou a ser mais do que o início de outro dia. O pôr do sol deixou de ser apenas parte da rotina. Um detalhe do cotidiano, um enfeite de Natal colocado à porta de casa, a presença das pessoas que ama, coisas aparentemente pequenas ganharam outra dimensão. “Todo dia que acordo e posso olhar o amanhecer, aquilo me traz alegria. Quando vejo o entardecer, o sol se pôr, sinto tanta satisfação. Hoje, a vida está nos pequenos detalhes: em ver uma flor florescer, colocar um enfeite de Natal na porta, nas pequenas coisas. É uma alegria de viver”, destaca Daisa.

Se antes o diagnóstico fez o mundo parecer se abrir sob seus pés, hoje Daisa olha para a mesma vida com outros olhos. E, depois de tudo o que atravessou, consegue resumir em uma única palavra aquilo que “vida” significa para ela agora: “Gratidão. Gratidão a Deus Pai Misericordioso.”

A gratidão também tem nomes. Marquinhos, o marido que segurou sua mão desde o primeiro resultado. Marco Antônio, o filho que se tornou fonte de inspiração e força. Seus pais, familiares, a família do marido e os amigos que transformaram afeto em presença quando ela mais precisou.
“Meu agradecimento especial é, em primeiro lugar, ao meu marido, que me segurou pela mão e foi meu companheiro; ao meu filho, que é minha fonte de inspiração e de força; aos meus pais, que estiveram ao meu lado em todos os momentos; à minha família e aos meus amigos mais próximos. Tenho por eles um sentimento de gratidão eterno por tudo o que fizeram por mim”, agradece ela.

Neste Outubro Rosa, a história de Daisa Patriarcha carrega algo que vai além do câncer. É sobre uma mulher que reaprendeu a olhar para o tempo, para si mesma e para a vida.
Porque existem exames que não devem ficar para o mês seguinte, existem sinais que merecem atenção. Existem histórias cujo rumo pode ser transformado pelo diagnóstico precoce.
E existem desertos que, depois de atravessados, fazem até as pequenas flores do caminho parecerem extraordinárias.








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