Anabolizantes e coração: o risco invisível por trás do ganho muscular
Por: Dra Brunna Américo Carvalho - Cardiologista
(CRM-SP 152 039) ( RQE 70 148)
O uso de esteroides anabolizantes pode comprometer a saúde cardiovascular, inclusive em pessoas jovens, aparentemente saudáveis e fisicamente ativas.
A busca por um corpo musculoso, melhor desempenho físico e resultados rápidos tem levado cada vez mais pessoas a recorrerem aos esteroides anabolizantes. O que muitos desconhecem é que, por trás dos ganhos estéticos, pode existir um risco silencioso e potencialmente fatal: o comprometimento do sistema cardiovascular.
Como cardiologista, considero fundamental alertar a população de que ter músculos definidos, praticar atividade física regularmente e apresentar bom condicionamento não significa, necessariamente, ter um coração saudável.
Os esteroides anabolizantes androgênicos, especialmente quando utilizados em doses suprafisiológicas e sem indicação médica, podem provocar alterações importantes no funcionamento do coração e dos vasos sanguíneos.
Entre os principais efeitos estão o aumento da pressão arterial, a redução do colesterol HDL (conhecido como colesterol bom), o aumento do LDL (colesterol ruim) e a elevação do hematócrito, que pode aumentar a viscosidade do sangue. Essas alterações favorecem o desenvolvimento da aterosclerose e podem contribuir para eventos cardiovasculares graves.
Além disso, estudos científicos associam o uso prolongado ou em altas doses dessas substâncias ao remodelamento do músculo cardíaco, com aumento da massa ventricular, prejuízo do relaxamento e, em alguns casos, redução da capacidade de contração do coração. Essas alterações podem evoluir para insuficiência cardíaca e comprometer a função cardíaca mesmo em indivíduos que, aparentemente, estão em plena forma física.
Outro motivo de preocupação é o maior risco de arritmias, infarto agudo do miocárdio e outros eventos trombóticos. O uso dessas substâncias também pode favorecer alterações na função dos vasos sanguíneos e acelerar processos que contribuem para doenças cardiovasculares.
Um dos aspectos mais preocupantes é que esses riscos não se restringem a pessoas de meia-idade ou com fatores de risco tradicionais. Adultos jovens também podem sofrer complicações graves, inclusive na ausência de sintomas prévios. A prática de musculação ou de esportes não neutraliza os efeitos nocivos dos anabolizantes sobre o sistema cardiovascular.
É importante destacar que o risco depende de fatores como dose, duração do uso, substância utilizada, associação com outros medicamentos e condições individuais. Entretanto, não é possível estabelecer uma dose de uso não médico que seja comprovadamente segura para o coração.
A avaliação cardiológica tem papel importante na identificação de alterações relacionadas ao uso dessas substâncias. A depender do histórico e dos achados clínicos, podem ser necessários exames como aferição da pressão arterial, avaliação do perfil lipídico, eletrocardiograma e ecocardiograma, além de exames laboratoriais específicos.
Contudo, é essencial compreender que exames normais em determinado momento não garantem ausência de risco futuro nem tornam seguro o uso de anabolizantes sem indicação médica.
A prevenção continua sendo a melhor estratégia. Ganhar massa muscular e melhorar o desempenho físico não deve custar a saúde do coração. Treinamento adequado, alimentação equilibrada, sono de qualidade e acompanhamento profissional são caminhos mais seguros para alcançar resultados sustentáveis.
O coração não precisa apresentar sintomas para estar sofrendo. Por isso, a informação e a conscientização são fundamentais para evitar consequências que podem comprometer não apenas a qualidade de vida, mas também a própria sobrevivência.
Cuidar da saúde cardiovascular significa olhar além da aparência física. Afinal, um corpo forte também precisa de um coração saudável.










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