Estudante da rede pública de Mendonça é 1º lugar em Jornalismo na USP
Do quintal simples de Mendonça aos corredores da maior universidade da América Latina, a história de Danyele Larissa Barbosa dos Santos é um retrato potente de como a educação transforma destinos e de como o amor de uma mãe pode mover montanhas.
Aos 18 anos, a jovem acaba de conquistar um feito que poucos alcançam: foi aprovada em 1º lugar no curso de Jornalismo da concorrida Universidade de São Paulo. Um resultado que impressiona não apenas pelo número, mas pela trajetória de resiliência e determinação.

Filha da empregada doméstica Marlete Ferreira dos Santos, Danyele Larissa construiu sua formação inteiramente na rede pública de ensino. Cursou o Ensino Fundamental I na Escola Municipal Antônio Alves da Costa e seguiu do 6º ano ao Ensino Médio na Escola Estadual Dona Nicota de Souza. Foi ali, com muito esforço pessoal, que ela decidiu mirar alto e não soltou o alvo até alcançá-lo.

Uma rotina dura, um sonho inegociável
Desde o 1º ano do Ensino Médio, Danyele Larissa já sabia: acreditava que era possível chegar à USP. E agiu como quem não aceita a ideia de desistir. Participou de olimpíadas acadêmicas, competições de conhecimento e manteve uma rotina intensa de estudos. No 3º ano, como vestibulanda oficial, a dedicação beirava o limite físico.
Estudava até de madrugada, dormia poucas horas, se dedicava durante as sete horas diárias de aula na escola, e ainda assim trabalhava aos sábados como atendente em um restaurante. Aproveitava cada intervalo, cada espaço possível. Colava post-its nas paredes com fórmulas, conceitos e repertórios de redação. Imprimia simulados para resolver em casa. Aos sábados, participava de aulões antes de seguir para o trabalho. Nos meses finais, a estratégia era clara: provas cronometradas, simulados exaustivos e treino constante de redação.
No meio dessa jornada, encontrou tempo para algo ainda mais surpreendente: criou um perfil nas redes sociais voltado aos estudos, no qual compartilha dicas de organização, mentalidade e aprendizado. O resultado? Milhões de pessoas alcançadas todos os meses, inspiradas por alguém que vivia exatamente a realidade que ensinava a superar.

Jornalismo: um chamado que nasceu da vivência
A comunicação sempre esteve presente em sua vida. Desde criança, Danyele Larissa gostava de câmeras, fotos e de se expressar. Mas a decisão definitiva pelo Jornalismo veio no 3º ano do Ensino Médio, impulsionada por experiências marcantes: a participação na CUCO (Competição USP de Conhecimentos e Oportunidades), a atuação como Presidente da Câmara Jovem em 2025, projeto de sua cidade, e aparições em jornais locais.

Esses momentos a fizeram perceber que não era apenas afinidade, era vocação. Ainda assim, o medo apareceu quando soube que havia apenas uma vaga para todo o estado. Foi então que entrou em cena a figura que atravessa toda essa história: a mãe.
Marlete, que saía de casa por volta das 5 horas da manhã para trabalhar, nunca faltou a uma reunião escolar, nunca deixou de incentivar as filhas. Danyele Larissa é a caçula de três irmãs. Mesmo exausta, fazia questão de demonstrar alegria e repetir frases que se tornaram mantras na vida da filha: “Você só sabe se tentar” e “tenta, o não você já tem”.
Danyele Larissa cresceu observando o esforço silencioso da mãe, que muitas vezes abria mão de si para garantir o essencial às filhas. Embora Marlete dissesse que queria que elas estudassem para “não serem como ela”, Danyele sentia o contrário: queria ser cada vez mais como a mãe, forte, generosa, incansável.
Foi esse exemplo que a motivou a fazer diferente, não por rejeição à própria origem, mas por amor a ela. “Eu queria que, um dia, a história da minha mãe também pudesse ser contada e sabia que, através de mim, isso seria possível”, relata ela.

A família chegou a Mendonça quando Danyele tinha apenas um ano de idade. A cidade pequena, tranquila e em contato com a natureza foi cenário de uma infância simples, com jornais vistos logo cedo enquanto a mãe a arrumava para a escola. Agora, este é seu último mês vivendo ali. Em poucos dias, ela se mudará para São Paulo para iniciar a nova fase.
Um sonho que se fecha em círculo
A aprovação na USP tem um simbolismo ainda mais profundo: Danyele Larissa nasceu no hospital da universidade. Em 2025, conheceu o campus e fez uma promessa silenciosa a si mesma: da próxima vez que voltasse, seria como aluna. Ela cumpriu.
A emoção ainda transborda. Ela confessa chorar toda vez que pensa que está prestes a viver aquilo que, por tanto tempo, foi apenas imaginação. “Ainda estou eufórica pela aprovação, pois estudei e me imaginei sendo aluna dessa universidade por muito tempo. Saber que, em poucos dias, vou me mudar para São Paulo para viver esse sonho é motivo de lágrimas toda vez que penso nisso”, conta Danyele Larissa - completando: “Mais do que estudar na melhor universidade da América Latina, espero me desenvolver, contribuir positivamente para a sociedade e conviver com pessoas que também transformaram esforço em conquista”.
Um primeiro lugar que carrega dois nomes

Ao falar de sua aprovação, Danyele Larissa faz questão de dividir o mérito. Agradece publicamente à mãe, Marlete Ferreira dos Santos, por ter confiado nela até nos momentos em que a própria filha duvidou. “Tudo o que sou e tudo o que conquistei devo a ela, minha guerreira. Tenho orgulho de ser sua filha e espero que, cada vez mais, a senhora tenha orgulho de ser minha mãe. Eu te amo mãe!”, declara.
A história de Danyele Larissa não é apenas sobre passar em um vestibular. É sobre resistência, afeto, educação e a força invisível de tantas mães brasileiras que, mesmo longe dos holofotes, constroem futuros extraordinários.
E agora, oficialmente, essa história começa a ser contada e do jeito que só o Jornalismo sabe fazer.









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